Que fim levou o futebol de várzea?

O “futebol de várzea” é uma denominação típica do vocabulário brasileiro, convencionada ao futebol praticado de forma amadora, muitas vezes como ponto de encontro de amigos para os fins de semana. Entretanto, nos últimos 30 anos, esse esporte praticado na sua forma original vem perdendo participação nas atividades urbanas. Voltemos ao início do surgimento desse termo.

Ao longo do processo de urbanização do Brasil – transferência da população do campo para a cidade – houve uma tendência de ocupação dos espaços às margens dos rios. Um ótimo exemplo disso é a cidade de São Paulo, em que a antropização – alterações humanas no meio – se deu ao entorno dos rios Pinheiros e Tietê. E com a ocupação humana, surgiram os primeiros campos de “futebol de várzea”.

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Campo de Várzea

Entretanto com o passar dos anos, esses campos foram progressivamente substituídos por vias marginais nas grandes cidades. Um caso bem conhecido é o da própria cidade de São Paulo, em que duas das suas principais rotas de fluxo urbano passam pela Marginal Pinheiros e Marginal Tietê. Esse panorama traçado evidencia um dos maiores problemas ambientais urbanos do nosso país. O modelo de planejamento urbano transformou as várzeas, naturalmente ocupadas por matas ciliares, em ambientes impermeáveis a partir de concreto e asfalto. Essa alteração no padrão da superfície, por sua vez, promove um aumento expressivo na vazão da água nesses ambientes, determinando enchentes urbanas cada vez mais agressivas e prejudiciais para a população local.

Em países que conseguem atrelar desenvolvimento econômico com valorização dos ambientes naturais, ou seja, aqueles que promovem o desenvolvimento sustentável, o novo modelo de planejamento urbano inclui as várzeas como ambientes integralmente preservados. E caso a vegetação que compõe as margens desses rios esteja degradada, esses planos incluem a recomposição vegetal e a constituição de parques públicos. Tais ações são fundamentais para garantir o aumento da permeabilidade do solo, sendo importante não apenas evitar as enchentes urbanas, como também para garantir a vitalidade do corpo d`água e oferecer a população áreas públicas de lazer.

As boas práticas não param de se multiplicar em países desenvolvidos como Inglaterra e Coreia do Sul. Enquanto isso no Brasil, projetos de canalização como o do Ribeirão Arrudas em Belo Horizonte continua atendendo aos princípios do planejamento urbano estabelecidos no início do século passado. Vide os fatos recentes como as sucessivas enchentes que atingem a região de Venda Nova aqui em nossa querida Belo Horizonte. Segue uma imagem dessa violência praticada pelos gestores públicos:

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Avenida Vilarinho – BH/MG

Relatos das pessoas que foram diretamente afetadas evidenciam a relação desse fenômeno com o lixo urbano – resíduos sólidos urbanos (RSU’s). As galerias pluviais comprometidas com o excedente de lixo, não sustentam o elevado volume de água decorrente de uma superfície urbana impermeável.

Atentem-se sempre a uma questão. As enchentes urbanas representam um gravíssimo impacto para o bem-estar da população. Grandes fenômenos como esses, não são resolvidos apenas com uma ação efetiva, mas sim, a partir de um conjunto sistêmico de medidas. Ou seja, o ideal é que integremos todas as soluções. Manejo adequado dos RSU’s, aumento de superfície permeável a partir de parques urbanos, arborização de calçadas e alteração do padrão de pavimentação, descanalização de alguns rios com sucessiva recomposição da cobertura vegetal, implantação de telhados verdes, entre outros…

Fica aqui a nossa torcida, para que comecemos a perceber uma coisa… O clima tropical não mudará, o excedente de chuvas, não será alterado! Logo, temos que mudar os rumos do conturbado/ineficiente planejamento urbano brasileiro.

A seguir, fiquem com outro texto do nosso blog acerca da urbanização desigual em nosso país: Luta pelo direito de morar – Assentamento Dandara e as contradições da prefeitura de Belo Horizonte

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
– Bertold Brecht –

Grande abraço meus caros!

 

Por – Vitor Augusto / Instituto Terra Negra

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